Documentos oficiais da Assembleia da República desmentem a narrativa segundo a qual o novo pacote fiscal foi aprovado sem debate e sem participação da oposição.
A análise detalhada dos pareceres das comissões parlamentares revela que deputados da Renamo e do PODEMOS estiveram activamente envolvidos na elaboração, discussão e reformulação das propostas de lei, até momentos antes do polémico boicote em plenário.
Longe de terem sido excluídos, os parlamentares da oposição assinaram pareceres, propuseram alterações e validaram a agenda que mais tarde decidiriam boicotar — um gesto agora visto como uma viragem política abrupta e interpretada por alguns sectores como acto de contradição e traição aos próprios procedimentos parlamentares.
Envolvimento directo da oposição confirmado nos pareceres oficiais
O Parecer n.º 33/2025, referente à revisão do Código do IRPS, demonstra participação efectiva dos deputados opositores. O documento conclui que a proposta cumpre as exigências constitucionais e apresenta contributos de reformulação do articulado, mostrando envolvimento substantivo no conteúdo da lei. Entre os subscritores encontram-se:
- Arnaldo Chalaua (Renamo)
- José Manteiga (Renamo)
- Dias Vasco Coutinho (PODEMOS)
- Suleimane Habibo Fonseca (PODEMOS)
- Catarina Inoque Suite Dinis (PODEMOS)
- Zeferino Amadeu Paiva (PODEMOS)
Todos participaram na apreciação na generalidade e na especialidade, tendo o parecer sido aprovado em plenária da Comissão.
Outro parecer reforça participação e influência da oposição
No Parecer n.º 72/2025, relativo à criação da ASFPM, a Comissão com deputados da oposição incluídos eliminou uma cláusula que blindava membros da entidade contra responsabilização. A alteração fundamenta-se em princípios constitucionais, demonstrando um contributo claro e decisivo da oposição no conteúdo final.
O documento foi aprovado após a audição parlamentar da Ministra das Finanças e contou novamente com subscrições de parlamentares da maioria e da oposição.
Comissões ouviram o Governo e analisaram todas as matérias do pacote fiscal
Em temas como pauta aduaneira e imposto simplificado, as comissões realizaram audições, analisaram propostas individualmente e discutiram-nas em grupos parlamentares, seguindo os procedimentos formais e com presença da oposição.
Conclusão: o boicote ocorreu apenas na fase final
A documentação oficial confirma que a oposição participou plenamente nas fases preparatórias e técnicas do processo legislativo, tendo o boicote sido uma decisão tomada somente no momento da votação em plenário — apesar de já terem contribuído e validado a agenda legislativa.
Para observadores políticos, o gesto levanta questões sobre coerência e responsabilidade parlamentar, alimentando a leitura de que o boicote representa mais um movimento estratégico do que uma verdadeira exclusão do debate.
Esta verdade, sustentada por documentos oficiais, desmonta a narrativa pública e lança nova luz sobre os bastidores e contradições do boicote na Assembleia da República.

